O DIFÍCIL DESAPEGO

editorial-abril-19

Tive um professor de filosofia que insistia em nos ensinar que livrar-se do desapego era uma das tarefas mais árduas que o ser humano teria ao longo de sua vida. Esse ensinamento, analisado superficialmente, parecia-nos exagerado; nós, estudantes imaturos, carecíamos do valor da experiência. É vital não esquecer que o tempo, esse companheiro incansável, está sempre ao nosso lado, auxiliando-nos a compreender o que a imaturidade nos nega.
Acredito que uma das razões que dificultam nos desapegar de certas situações, objetos, etc., seja o fato de que nos esquecemos que a presença humana no mundo é efêmera; a simples lembrança desse fato será de grande valor para adotar o desapego com a maior naturalidade. Não é verdade que as coisas (mesmo aquelas objeto de nosso apego) inevitavelmente vão perdendo seu valor inicial, vítimas da inexorabilidade do tempo? Por enquanto estamos nos detendo nas coisas óbvias, guardadas nos armários para mofar. Todavia, para que nossa mensagem avance para outro terreno, há mister pôr em evidência outro campo, onde o desapego é mais necessário para que aproveitemos a vida com objetivos mais profundos: nosso mundo interior, “local” em que nossa verdadeira vida flui. Trata-se do desapego espiritual. Tendo em vista, porém, que atualmente nosso viver é praticamente material, ignorando quase por completo a vida espiritual, talvez fique difícil entender ou aceitar a existência desse tal de desapego espiritual. Explico: se vivemos num mundo materializado, que motivos temos para crer em “desapego espiritual?” Com um pouco de boa vontade não será difícil entender o que significa. Nossos defeitos (na falta de termo melhor), a exemplo do que guardamos no armário, também são objeto de nosso apego (haja atraso; não é uma vergonha?). É deles, mais que as tralhas enfurnadas no armário que temos que nos livrar, porque embotam nossa razão e maculam a correta visão do nosso caminho no mundo. Vamos abrir nosso espírito e nos desfazer dos falsos oásis em direção aos quais nosso ego perigosamente nos aponta.

Luiz Santantonio
santantonio26@gmail.com