DESEJOS & ILUSÕES, ALIMENTAM?

maio-2017-editorial

Dia desses recebemos um telefonema de uma das filhas de nossa diarista, informando que sua mãe não comparecera ao trabalho por estar acamada, vítima de forte gripe. Pediu, também, que lhe adiantássemos o pagamento para comprar remédios. Confesso que não desconfiei do pedido e, prontamente me prontifiquei em levar o dinheiro, diretamente, à “casa” dela, local já conhecido por nós. O leitor percebeu, com certeza, porque a palavra casa foi aspada (entre aspas). A casa consistia num único cômodo, que reunia tudo o que se encontra em uma casa normal: cozinha, banheiro, quarto, etc.
Na parede da frente, algo assustador: Um televisor, enorme, modelo recente, ocupava, praticamente, quase toda a parede – que não deveria ter mais que quatro metros. No chão, deitada em colchões maltrapilhos, a família (até mesmo a doente) vibrava com o programa escolhido, programa esse, apropriado à ignorância daquela pobre gente. Fato curioso é que ela se sujeitava a viver ali, plenamente conformada com a miséria, desde que não lhe faltasse o alimento fundamental para mantê-la, naquele mundo distante do seu casebre, no qual tudo é bonito, todos os sonhos são possíveis, enfim, ilusão hipnótica, com poder suficiente para promover a fuga dessa realidade dolorosa e permanente. Note-se, porém, que essa fantasia embute custos fora da possibilidade da família que passa necessidades tremendas para custear as prestações mensais. Essa sujeição, a exemplo de outros vícios (drogas, álcool, cigarros) deverá, (ou deveria) receber o mesmo tratamento porque (sem exagero) destrói a vontade da pessoa, obrigando-a a viver fora da realidade, e conduzindo-a, fatalmente, ao sofrimento. Para os fãs da falsa filosofia de que na vida tudo é sofrimento, nada mais a dizer, porém, para aqueles que entendem a vida como um caminho de aperfeiçoamento em busca da iluminação, da experiência, do bem, esse caminho não emplaca. Livremo-nos, portanto, de nos deixar escravizar pela fantasia, procurando nos aproximar do conhecimento. Devo esclarecer ao leitor, que a televisão possui inúmeros programas que nos trazem conhecimento útil, bem como diversão sadia, enfim, quanto mais nos livrarmos da ignorância, mais nos afastaremos de viver num mundo liderado pelas lindas e ilusória bolhas de sabão.
Em tempo: a doença dela era real, e foi preciso muito cuidado para que se recuperasse, o maior mal, contudo, permanece ativo e “em cores” na parede da “casa”.

santantonio26@gmail.com