Vai dar tudo certo?

psicologia-maio-2018

Muitas vezes, afirmamos- “vai dar tudo certo”- com a empenhada eloquência de quem sente a certeza de acenar, favoravelmente, para tantas coisas que desejamos empreender na vida pessoal e profissional, e, raramente, colocamos um ponto de interrogação que nos faça duvidar dos projetos em mira, ou seja, negamos as chances mentais de antecipar as eventuais derrotas — e elas existem como testemunhas das nossas repetidas experiências. Por que agimos assim, com parcialidade fantasiosa, se os dois cavalos da sorte correm emparelhados, na mesma pista dos acontecimentos?
Tememos atrair o azar, caso consideremos a possibilidade do fracasso? A força do pensamento positivo é, realmente, tão poderosa que sem ela tudo seria um enorme fiasco? O que dizer das palavras do sábio filósofo grego Sócrates (470-399 a.C.)? “Sabes que sem a esperança do sucesso, nenhum prazer experimentamos, de modo que, se se pensa obter bom êxito, seja na agricultura, seja na navegação, seja em outra profissão qualquer, a ela nos dedicamos com tanta alegria, como se já tivéssemos triunfado.”. E quanto aos nossos pensamentos secretos mais sombrios a respeito dos tombos e temores que se colocam, ansiosamente, adiante dos trilhos, cujo trem se lança ao descarrilamento, contudo, assombrosa e contrariamente a eles, por vezes, chega-nos o bem-aventurado êxito, causando, inclusive, a sensação de tempo perdido por desnecessárias antecipações e mal-estar decorrente?
Mas, a teimosa luz vermelha da experiência, acaso não se acende quando criamos expectativas acerca do que desejamos? É uma espécie de jogo que nos faz querer se levantar da mesa e ir embora ao nos lembrar dos desagradáveis resultados de outras partidas. Ora dá certo, ora… “Somos arrastados pelas circunstâncias e entregamo-nos às esperanças, que nos proporcionam apenas metade do que esperamos.”, na contundente descrição da matemática e filósofa francesa Émilie du Châtelet (1706-1749), levando-nos ao desconforto típico do risco…
O que não vemos? O que falta, talvez, para que a roleta dos fatos aumente as chances diante das apostas que fazemos? Uma coisa é inegável, não podemos ficar sem as ideias, o planejamento e a intensidade que os regula, emocionalmente, decerto que não, portanto, os pensamentos ajudam a plantar e a cultivar a fina flor do sucesso nas realizações. Mas, vale se cercar de duas escoltas neste tipo de viagem tão comum e, significativamente, cara a nós: o autoconhecimento que tanto nos dá o mapa sobre o que já podemos e o que ainda precisamos desenvolver (qual a máxima do filósofo inglês John Locke (1632-1704): “Quando conhecermos nossa própria força, saberemos melhor o que intentar com esperanças de êxito…”), quanto dirigir melhor os sonhos por direções mais ajustadas ao que queremos de verdade, que apele à vigorosa vontade íntima e menos às pálidas impressões externas, alheias…
Por fim, é moderado manter em mente a inevitável presença da aleatoriedade, pois diversos fatores entram em constantes e bombásticas combinações e desajustam, frustrantemente, as construções em andamento. É claro que a tenacidade e a resistência são capazes de se imporem ao prejuízo das demolições, e mesmo sob a forte e natural chuva da tristeza e desânimo eventuais, o sol da esperança, do recomeço e das realizações demonstra aparecer, gloriosamente, no céu das possibilidades.
Vai dar tudo certo? Talvez, se em torno da aconchegante fogueira das intenções se reúnam a reflexão, a esperança, o autoconhecimento, uma pitada de sorte, a persistência, e, é claro, a capacidade de aprender a lidar com a frustração, porquanto não há escuridão noturna que não seja sucedida pelo luminoso raiar do dia.

Armando Correa de Siqueira Neto é psicólogo e mestre em liderança.
armandocorreadesiqueiraneto@gmail.com