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Julho 2010 - BUSCAR A VERDADE: SONHO, OU UTOPIA?
   

Neste mundo enganador,
Nada es verdad nin mentira
Todo es del color
Del cristal em que se mira

 

Este mês resolvi acabar com a sua folga, leitor; para tanto, convido-o a filosofar em minha companhia. Para me aventurar com alguma segurança nesse campo  achei prudente valer-me da inspiração do insigne poeta  Ramón de Campoamor. Proponho, pois, a seguinte façanha:  filosofar em busca do conhecimento da verdade. Nós, via de regra, convivemos com duas verdades: a relativa e a absoluta. A humanidade, embora infinitamente distante da absoluta, tem a pretensão de explicar – principalmente no campo do abstrato (do imaterial) – todos os fenômenos que envolvem a existência, o poder, e as leis de Deus. Pergunto: Se nós ainda não encontramos o caminho para o nosso mundo interior, onde a nossa verdade se encontra oculta, prudentemente distante dos olhares alheios, qual, sinceramente, deveria ser a nossa expectativa em penetrar nesse outro mundo, distante e complexo? Não é preciso ser sábio para saber a resposta. Nosso interior, embora criado por nós, (sem culpar ninguém, sejamos sinceros), nos é desconhecido, em parte porque é trancado a sete chaves. Essa realidade por si só deveria nos servir de reflexão, evitando que arriscássemos em voar mais alto do que nossas pequenas asas permitem. A extensão de nossa ignorância, conforme certo poeta afirma, assemelha-se ao infinito. Isso por acaso nos impede de nos mostrar grandes e sábios? Não! O mundo cultua muitos deuses; dois deles, no entanto, têm primazia: a vaidade e a hipocrisia, que projetam no indivíduo um falso potencial de ação.

Conta-se uma história interessante sobre um sapateiro que ao se deparar com um quadro numa exposição de pintura, chamou o pintor de lado e criticou a forma como havia pintado os chinelos da figura.  Não contente desandou a criticar outras partes da obra, ao que artista, muito gentilmente respondeu-lhe: “o senhor é sapateiro, portanto, atenha-se aos chinelos”. É isso, mutatis mutandis, o que ocorre no mundo com as pessoas que mesmo não tendo sequer a condição de conhecer a sua verdade, saem por aí travestidos de conhecedores da verdade absoluta, apenas porque “entendem de chinelos”. A realidade, por mais que apelemos aos nossos neurônios é esta: não sabemos se um dia viremos a conhecer o que imaginamos ser a verdade absoluta; de minha parte creio que sim. É imperioso, todavia, voltar-nos, humilde e corajosamente, como primeiro passo, para nós mesmos. Se, ou quando, chegarmos a conhecer a nossa verdade, só então poderemos, gradativamente, encetar a caminhada em busca daquela outra.  Trata-se, sem dúvida, de um assunto cuja natureza comporta muitos ângulos ainda obscuros. Voltemos por ora, como meros filósofos amadores, e para nosso consolo, para as palavras que iniciam este trabalho: “Neste mundo enganador...” enquanto não alcançarmos a verdade absoluta, teremos que nos contentar ... “com el color del cristal em que se mira”

Luiz Santantonio
Santantonio26@gmail.com

 
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