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Abril 2010 - O cão afinal consegue; o homem, não! |
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Cenas da cidade onde vivemos: A pessoa está caminhando quando se depara com um cão molambento, sujo, faminto, sem dono, abandonado à própria sorte. Ali perto, um homem deitado, igualmente molambento, sujo, sem dúvida faminto, e com certeza abandonado. Os transeuntes, em sua maioria, se compadecem do animal e, não raro, providenciam algum auxílio, quando não o encaminham para uma dessas organizações que cuidam de animais perdidos ou “jogados fora”. É conduta certa e necessária. Por outro lado qual é o comportamento de grande parte dos transeuntes em relação à criatura (seu semelhante, afinal) jogada no meio da rua, da forma descrita mais acima? Procura sempre evitar qualquer contato; não tem tempo – nem disposição - de parar um minuto sequer para verificar se a pessoa está viva ou morta; se tem fome ou sede; se está doente; enfim, se é digna de um pouco de atenção. Outra visão teríamos se hipoteticamente fôssemos obrigados a trocar de lugar com ele. Se o indigente estivesse acordado e presenciasse o carinho dispensado aos animais abandonados, e a indiferença com que o tratamos,- ele, nosso semelhante - por certo desvendaria parte do mistério que torna a vida tão difícil e nebulosa. Uma coisa é certa: Ao caminhar pela rua não há quem não se penalize ao ver um animal perdido, sujo e faminto: por outro lado, não há quem pense seriamente na desumanidade que caracteriza os chamados “sem teto”. Sabemos filosofar sobre a desumanidade com que o animal é jogado na rua, enquanto que a nossa vã filosofia se queda muda diante do infortúnio dos nossos semelhantes. Se constituíssemos um conjunto de tribos pré-históricas, até que isso não seria tão absurdo. Porém, leitor, “somos civilizados”; “somos cristãos”; “somos religiosos”; “acreditamos em Deus” etc. etc. Somos, na verdade, hipócritas em tempo real! Cada qual tratando de si, egoisticamente, sem sequer olhar para o lado; e quando o fazemos, somos suficientemente preparados para enxergar apenas o que nos interessa, sem analisar se o nosso interesse é também o interesse dos outros. Sejamos sinceros: ao enfrentar essa desigualdade de sentimentos, nós temos a resposta na ponta da língua: a vida é assim mesmo; uns têm, outros não! Isso significa que não existe para o ser humano necessitado a mesma compreensão que existe para o animal. Quando se trata de animais abandonados o mundo em coro proclama alto e bom som: precisamos acabar com os maus tratos para com os animais. Quanto a nós, teremos que continuar assistindo ao espetáculo deprimente de ver nossos semelhantes jogados na rua com a mesma consideração que damos a um saco de lixo; melhor dizendo: o lixo tem valor; o animal também; e o homem de rua é que passa a constituir o verdadeiro lixo, e como tal, deve ser descartado. É uma pena que não exista ainda reciclagem para as pessoas abandonadas. Quando se trata de seres humanos abandonados, ninguém se volta a eles sem algum tipo de questionamento: é louco; é bêbado; abandonou a família; não tem juízo etc.. Os animais perdidos, de uma forma ou de outra, encontrarão quem deles se apiede e os ajude sem nenhum julgamento, porque afinal, não têm culpa de sua situação, uma vez que são irracionais. Para eles, o amor; para nós, a sarjeta. Quando teremos direitos iguais? Luiz Santantonio |
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