Revistas Em Condomínios
Setembro 2009 - Ó ser humano, onde estás que não respondes? Em que canto escuro de tua alma tu te escondes?
   

Essa é uma corruptela do início de uma poesia de Olavo Bilac.  Isso não tem muita importância, porque afinal não estaremos a falar de poesia, e sim, de vida.
A vida, ah, a vida! É desta, ou apenas de um fato em particular, que nos ocuparemos. Preciso, inicialmente, falar um pouco de mim. Por exemplo: sou apaixonado por caminhar. Não caminho apenas para fazer exercício; caminho para observar a riqueza do mundo revelada pelas pessoas que encontro nas ruas. Como respeito os seres humanos –quaisquer que sejam – posso observá-los e analisá-los. Eles são minha matéria-prima de trabalho; graças a eles posso extrair de minhas observações algo essencial para me tornar útil aos leitores. Quantas vezes ouvimos dizer que até as pedras se encontram? Não há
verdade mais simples nem mais positiva. Pois é: durante minhas caminhadas numa das pracinhas próxima a minha residência, tenho visto, nos dias ensolarados, um senhor acomodado numa cadeira de rodas, sempre acompanhado por dois enfermeiros, indicando que teria sido vítima  de derrame. Passo por ele e, embora um tanto envelhecido pela
enfermidade, conserva ainda traços inequívocos de alguém que “foi socialmente alguém” no passado. Ter dois cuidadores ao seu dispor não é, seguramente, para pessoas sem posse.
Desde a primeira vez que o vi tive a impressão de conhecê-lo. À medida que os dias foram passando acabei não resistindo à curiosidade; e dia após dia, passei a cumprimentá-lo com a finalidade de provocar alguma aproximação que me desse a resposta. Ao fim de mais alguns dias ensaiei um início de diálogo; ele, embora com a dificuldade, conseguia balbuciar, a meia voz, algumas palavras. E o fazia com suavidade, dando a impressão tratar-se de um “cavalheiro de fino trato”. Enquanto o observava, depois de algum tempo matei a charada: aquele homem, hoje e fala macia, havia sido na época de minha mocidade, um dos meus chefes numa empresa na qual trabalhei. Sim, com certeza era ele. O tempo, essa dádiva divina, sem julgar, funciona como um relógio, cujos ponteiros marcam inexoravelmente, todos os nossos passos, segundo a segundo.  Ali estava, diante de mim, alguém que no passado não respeitara ninguém, e cuja regra de vida se baseava em subir os degraus profissionais a qualquer preço. Quantos colegas foram injustamente demitidos por ele; quantos foram humilhados; tantos perderam seu lugar de trabalho apenas por seu capricho. Ele soube construir, com o poder de sua bem urdida tirania, uma brilhante carreira, tanto social quanto economicamente. E hoje, o que resta? Garanto que pelo tipo de vida que levou, não lhe sobram nem colegas nem amigos. Nada mais preciso dizer; apenas terminar repetindo as palavras do título, com o fim de nos deter diante desse fato, e... pensar, pensar bastante sobre a forma como estamos construindo nossa vida: Ó ser humano, onde estás que não respondes? Em que canto escuro de tua alma tu te escondes?

Luiz Santantonio
Santantonio26@gmail.com

 
Aumente e diminua as letras:
a  a  a
Em Condomínios - São Paulo - Brasil   |   PABX: 11 5032-0105   |   E-mail: emcondominios@uol.com.br   |   Topo