ONTEM
Quando eu era menino, estudante do antigo curso primário, havia um livro de leitura muito interessante, com histórias adequadas à formação moral dos alunos. Uma delas ficou indelevelmente gravada na minha memória. Intitulava-se o “Bom ladrão”. Resumidamente, era mais ou menos assim: Certa noite um menino pequeno ouviu ruídos estranhos vindos da cozinha da casa. Levantou-se e foi ver o que era. Uma vez ali deparou com um ladrão que furtava as panelas, (bons tempos aqueles) depositando-as num grande saco. O menino, choroso e sem demonstrar medo, aproximou-se do larápio e, com a ingenuidade característica da época, pediu: “Seu ladrão, por favor, não leve as panelas; elas são de minha mãe, e sem elas minha mãe não terá como fazer nossa comida”. O ladrão, tocado pela sensibilidade do menino,
concordou em devolver as panelas e retirou-se sem levar nada. Era assim que se contavam as histórias, e os ladrões daquela época, como se vê pelo exemplo, arriscavam-se até mesmo para furtar panelas usadas.
HOJE
Nossa próxima história não foi extraída de nenhum livro, e sim, da vida real. Ela se passa em nossos dias. Certa noite, um dos meus vizinhos, cuja mãe, já idosa, estava passando mal, pediu-me que o acompanhasse ao um pronto socorro, tendo em vista que o restante da família estava viajando, em período de férias. Sentei-me no banco traseiro a fim de amparar a senhora, e lá fomos nós, em plena noite, sacolejando no interior de um fusca em final de carreira, em direção ao pronto socorro. Tudo corria normalmente, até que fomos obrigados a parar num sinal vermelho. Enquanto esperávamos a mudança do sinal, um cidadão, portando uma arma, intimou meu amigo a prosseguir, informando que se tratava de um assalto (que mais poderia ser?). O ladrão sentou-se ao lado do motorista e, de arma em punho, mandou tocar pra frente. Todos nós sabemos que nessas ocasiões não se deve tentar dialogar com o ladrão, porém, nossa situação era por demais dramática para permanecer calados. Eu e meu amigo, - quem já foi assaltado sabe – ficamos por alguns segundos inteiramente mudos e cheios de medo. No momento seguinte, ao olhar para a senhora doente, deitada em meu colo,
mandei tudo às favas, pedi a Deus que me ajudasse e me dirigi ao ladrão, mais ou menos com aquela vozinha titubeante do menino da história anterior: “moço”, implorei,” esta senhora está muito mal e precisa ser atendida com urgência; por favor, o senhor pode levar o carro, mas antes permita que cheguemos ao hospital, senão ela morre”.
O ladrão, um pobre coitado, (o que mais poderia ser para arriscar-se a roubar um fusca velho?) olhou para trás e murmurou: “Tá bem, tá bem, leva ela pro hospital, mas se vocês fizé bestera, morre.” Meu amigo, que tremia mais que eu, e com certeza agoniado pelo estado da genitora, prometeu que assim que chegássemos ao hospital nós levaríamos a doente e ele que ficasse com o carro. Ao chegar ao PS, nossa única preocupação era transportar a doente para ser atendida; naquele momento o ladrão – que pouco ou nada falava – estava praticamente esquecido. Ao descer do carro para apanhar uma cadeira de rodas, fomos surpreendidos pela sua atitude; ao invés de fugir com o carro, ajudou-nos a transportar a doente. E o fez com carinho, totalmente desligado do seu propósito inicial. Uma vez ajeitada no interior do PS, ele, o facínora, candidamente observou: “podia ser minha mãe”. E desapareceu na noite, “sem levar as panelas”.
Luiz Santantonio
Santantonio26@gmail.com