Revistas Em Condomínios
Junho - 2008 - Somos todos culpados?
   

Quando se lê uma afirmação dessa ordem, a primeira coisa que nos vem à mente é querer explicações sobre quem é culpado de que falta ou faltas. Infelizmente terei que ser radical. Todos nós, sem exceção, somos culpados por tudo o quanto de mal acontece. Exagero? Não, e vou explicar o porquê. Nós acompanhamos perplexos e revoltados a todos os dramas que ocorrem no mundo: pessoas que torturam crianças sem nenhuma explicação; pais que assassinam filhos com a maior frieza; jovens que penetram em escolas e matam dezenas de pessoas sem qualquer motivo; matam por matar; mães que afogam crianças recém-nascidas; médicos que realizam abortos e vendem os fetos para a indústria de cosméticos (foi descoberta, recentemente na “civilizada Inglaterra”, uma clínica na qual os médicos chegam a eliminar não mais fetos, mas sim, crianças vivas, de até sete meses. “Afinal a mãe pagou, então o serviço tem que ser feito” alega um dos médicos da clínica). O leitor compreende que se eu alinhasse todas as barbaridades que nós praticamos, (isso mesmo, nós, e não apenas os outros) seria necessário que a revista tivesse centenas de páginas, e todas ocupadas apenas em relatar casos e mais casos de estarrecer. Você, leitor, ainda não está convencido (e conforme o caso, até revoltado) de que somos todos culpados. Sua alegação (ou nossa, melhor), será: sou uma pessoa que não faz mal a ninguém; respeito as leis, procuro agir corretamente onde trabalho etc. Então sou culpado de quê? É nessa ilusão, leitor, que nós, inocentemente, embarcamos. Isso porque ao analisar nossa conduta não encontramos nenhum delito: nunca matamos ninguém, nunca furtamos, nunca isso, nunca aquilo, e assim vai. Antes de nos colocar na posição de inocentes, o melhor é deixar de melindres e ir a fundo na questão da culpa. Será que você que escreve pretende insinuar que não há inocentes, e sim, apenas culpados? É verdade, e vou “matar a cobra e mostrar o pau”. Quando uma dessas pessoas que se julga inocente desperdiça centenas de litros de água potável para lavar a calçada ou seu precioso automóvel; quando seu cachorrinho defeca na calçada e ela não se dá ao trabalho de recolher os dejetos caninos, por acaso está agindo corretamente? Tais atos, embora com a aparência de inocentes, não demonstram uma clara evidência de falta de civilidade, e, portanto, de culpa? Deve-se por acaso bater palmas quando alguém, para se divertir, lança a latinha de cerveja vazia na rua? Isso por acaso deve ser encarado como diversão, ou o que? São, caros leitores, centenas de atos, aparentemente inocentes, que, somados, transformam todos nós em culpados, por mais que tentemos alegar inocência.
Uma coisa é certa: os grandes males começam pequenos. Então, um pouco aqui, um pouco ali, conclui-se que a humanidade não possui um mínimo de educação, um mínimo de respeito, um mínimo de amor por coisa alguma. E o que é pior: para se livrar da culpa, costuma classificar os erros em pequenos e grandes, de acordo com sua conveniência. Apontem-me um pai que não faz tudo para inocentar um filho, mesmo quando sabe que ele é responsável por um delito grave? Apontem-me outro que não faz tudo para acusar o filho de outrem (sem se deter na provável inocência dele) quando o prejudicado é seu filho? Quer dizer que, pode-se agir desonestamente com os outros para proteger os nossos? Muitos afirmarão que proteger os nossos é sinal de amor; então para tanto, vale tudo. A nossa honestidade é muito volátil, e funciona apenas para proteger nossos interesses. Em tudo isso não existe culpa? Basta ser honestos para verificar que a inocência é difícil, não porque os interesses minam completamente nossa visão, e sim porque nossa decisão esbarra em muitos pontos que a tradição classifica de inocentes.
Falta, entre nós, o equilíbrio entre os mundos exterior e o interior: o escritor R. H. Blyth nos adverte como é difícil esse equilíbrio: “Como podemos estabelecer uma harmonia entre nós mesmos e o mundo exterior repleto de equívocos, fraudes, violência, se, a todo o momento nós próprios estamos cheios dessa mesma estupidez, insinceridade, crueldade e indolência?” Nossa moral e nossa ética se alicerçam em aparências, e muito pouco na Moral e na Ética. Essas duas palavrinhas, que vivem na boca de todos, perderam seu valor, e hoje fazem parte dos estratagemas para encobrir nossas culpas. Ou quem sabe leitor, tendo em vista nosso imenso atraso espiritual, nos inclinamos a adotar em nossa conduta diária a arguta observação do poeta latino Ovídio: “Vídeo meliora proboque, deteriora sequor” (Vejo o bem e o aprovo, mas faço o mal).

Luiz Santantonio
Magnolu@uol.com.br

 
Aumente e diminua as letras:
a  a  a
Em Condomínios - São Paulo - Brasil   |   PABX: 11 5032-0105   |   E-mail: emcondominios@uol.com.br   |   Topo