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Março 2006 - Sou mulher. Fui gerada de uma costela do homem
   

Que direito tenho, portanto, de aspirar à qualidade?
Não é nosso objetivo polemizar à respeito desse assunto. Um fato, porém, parece demonstrar que a criação do homem e da mulher - tendo como base o Velho Testamento - obedeceu a dois padrões diferentes, daí ter a desigualdade dos sexos prosperado tanto no mundo. "Esse" ato criador evidenciaria, se nele houvesse alguma lógica, um procedimento inaceitável, ou seja: Deus, que é a fonte do amor, teria criado seus primogênitos dentro de um clima de absoluta desigualdade. Diante disso a prudência nos aconselha a seguir em frente, e deixar o quebra-cabeça dessa "fábula divina" para os que se encontram acorrentados ao atraso medieval e ainda não aprenderam para que serve o raciocínio.

Como acalentar essas "verdades" sobre a pretensa inferioridade feminina, sabendo-se que todos os homens, bons e maus, sábios, santos, artistas, imperadores, e até mesmo os mais renhidos misóginos, formaram-se num ventre feminino? E dos cuidados maternos o que dizer? Então: sem elas nós simplesmente não existiríamos; melhor ainda: o mundo não teria como hospedar os humanos pelo simples fato de não haver quem os gerasse. Vamos adiante: passemos um olhar panorâmico sobre o passado: as poucas mulheres que tiveram oportunidade de mostrar sua capacidade (rainhas, escritoras, cientistas, dirigentes etc) demonstraram sobejamente que a tal inferioridade feminina está arraigada num passado de ignorância cultural, alimentado – e bem alimentado, infelizmente - por quase todas as correntes religiosas. As mulheres, (por ora só as ocidentais) felizmente, já derrubaram esse "muro de Berlim", e vão, passo a passo, conquistando o lugar a que fazem jus no mundo. Que elas "já chegaram lá", portanto, é fato consumado. A única coisa preocupante nessa conquista: as mais afoitas estão imitando os maus exemplos masculinos e partindo para o "quem pode mais chora menos". É totalmente falsa essa conversa de que competição é um processo saudável e democrático. Competir, quase sempre, significa vencer o oponente a qualquer custo, ignorando a ética, a moral, e tudo o mais que se antepuser à frente. Se elas, todavia, não se deixarem envenenar pela vaidade e enveredarem pelo caminho da parceria, da compreensão e do amor, a igualdade será a regra e não a exceção. Um alerta, no entanto, precisa ser dado: todas as conquistas humanas somente serão reais e duradouras se forem realizadas sob o signo de uma compreensão evoluída, acima e além de mesquinhos interesses pessoais. Temos que decidir, serenamente, se vamos nos amar ou guerrear. Se nos amarmos, venceremos; se continuarmos a guerrear, nos derrotaremos. Cabe a nós a responsabilidade da escolha!
Homens! Sois capazes de justiça? É uma mulher quem faz a pergunta. Pelo menos, não podeis privá-la desse direito. Dizei-me, quem vos deu o poder soberano para oprimir o meu sexo? A vossa força? O vosso talento?
Esse é um pequeno trecho da Declaração dos Direitos da Mulher, escrita em 1790 por Olympe de Gouges, uma das inúmeras heroínas que lutaram pela emancipação das mulheres. Duzentos e dezesseis anos já se passaram; será que foram suficientes?

Luiz Santantonio - magnolu@uol.com.br

 
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