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Abril - 2008 - Por que é tão difícil sair da caverna?
   

Porque tememos a claridade!
Dia destes levei uma pessoa da família para ser consultada por um médico. Como se tratava da primeira consulta após ela ter passado por uma delicada intervenção cirúrgica, a consulta, por requerer diversos procedimentos, prolongou-se por quase três horas. Não há quem não saiba o que sejam três horas de espera numa sala pequena, com novos pacientes chegando a cada momento. Essa situação, como tudo na vida, tanto pode ser deprimente, como útil, dependendo de como o tempo for usado. Já notei, - principalmente quando a espera é longa – que esses períodos podem facilitar nossa “saída da caverna”, desde que nossos olhos espirituais, ainda que por pouco tempo, se esforcem para enxergar a claridade. Isso significa que a sala-de-espera nivela todos; ali todos são iguais; todos são apenas seres humanos sofredores em busca de ajuda. Não há o melhor nem o pior. É nesses raros momentos que se estabelecem diálogos entre as pessoas, durante os quais, dependendo da qualidade do diálogo, as pessoas se abrem, desnudando sentimentos que habitualmente permanecem ocultos. Na troca de informações, ouve-se com freqüência análises filosóficas (sim, filosóficas) sobre os valores da vida, principalmente sua transitoriedade, e o quanto somos frágeis diante do “homem da foice”. E, uma vez formado o clima, as diferenças sociais se diluem; não há nem ricos nem pobres; nem bem-vestidos nem mal-vestidos. Momentaneamente somos aquilo que na realidade somos: seres humanos iguais em busca da recuperação da saúde. Roupas, dinheiro, posição, tudo é relegado a um plano inferior, dando lugar à realidade, ou seja: a dor e a morte não são apanágio de alguns, e sim, de todos os viventes. Por que, se já compreendemos nossa fragilidade como criaturas físicas, sujeitos a deixar tudo num relance, relutamos tanto em “sair da caverna?” Por que vestimos roupagens exteriores sempre diferentes daquelas que vestem nossa alma? Infelizmente, tão logo nos despedimos, tudo aquilo que foi objeto de nossas reflexões é deixado para trás. Se encontrarmos (eu já encontrei algumas) uma daquelas pessoas na esperança que depois de nossa conversa na sala de espera já tivesse definitivamente abandonado a escuridão da caverna, com certeza nos decepcionaríamos com a postura adotada. O elástico da rotina diária volta rapidamente ao ponto de partida. É o lastimável retorno ao camarim para a troca de roupa.
“Memento, homo, quia pulvis est et in pulverem reverteria”. Expressão latina da liturgia religiosa (quarta-feira de cinzas), que significa: Lembra-te homem, de que és pó e pó voltarás a ser.

Luiz Santantonio
magnolu@uol.com.br

 
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