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Fevereiro - 2008 - ...Eu, pobre de mim, não acreditava no inferno!
   

Eu, como a maioria das pessoas razoavelmente esclarecidas, não acreditava no inferno. Bastou acompanhar o hospício em que a população cria no período da chamada época das festas de fim de ano (Natal e Ano-novo) para mudar de idéia. Nesses dias, castigadas pelas altas temperaturas de verão, ir às compras, viajar, enfim, tudo o que exige esforço físico torna-se um tormento. Tanto é verdade que grande parte da população, inoculada pela busca de um descanso tranqüilo a ser conquistado alhures, resolveu sair da cidade em direção às praias; isso praticamente em todas as cidades praianas do país. Eu, que sou “gato escaldado”, resolvi, sabiamente, passar as festas no sossego de minha casa, sem folias, nem excessos. Você, leitor, ou fez parte da loucura, ou fez como eu. Se participou da loucura, padeceu no trânsito das estradas por horas e horas para chegar ao destino (isso é diversão?); padeceu ao enfrentar não só o calor, como o excesso de gente nas praias (isso é relaxar?); padeceu pela falta de água (isso é desgastante na volta da praia quando se precisa de um delicioso banho de chuveiro); por fim, padeceu para retornar; mais horas e horas de sofrimento. O turista vai à procura do céu e encontra o inferno. Quem acompanha essa saga, não entende a coragem do turista de trocar o inferno da Capital por outro, na praia.
O poeta italiano Dante Alighieri é autor de uma obra interessante denominada “O inferno”. Nela o autor cria situações específicas para cada condenado. Os tormentos são correspondentes ao tipo de pecado ao qual a conduta da alma esteve atrelada de forma preponderante: cobiça, inveja, ódio, luxúria etc. Cada classe de infração corresponde ao um tipo de tortura eterna. (Permitam-me uma rápida digressão, mas vocês, tanto quanto eu, acreditam que o inferno (se existisse) poderia ser obra de Deus?). Quando acompanho a forma como se vive no mundo, à procura de satisfazer a fúria consumista, ou para “relaxar”, fico imaginando em qual departamento do inferno cada uma delas se encaixaria. Permanecer horas sentadas ao volante de um carro, sob o sol inclemente, para chegar a uma praia lotada de banhistas, pode ser considerada uma forma de diversão ou de relaxamento? Não nos esqueçamos do carnaval; ele é mais uma oportunidade de repetir tudo isso. Gostaria de parafrasear o poeta, de criar lugares no inferno imaginário do mundo, para enviar os portadores dessa conduta paranóica. Não consigo aceitar a idéia que sofrer é sinônimo de prazer. Será que somos apenas seres masoquistas disfarçados de pessoas mentalmente normais? Será que o que nos causa prazer terá que ser temperado pelo sofrimento? Por que nos custa tanto aceitar que o sofrimento é parte integrante da vida? Em que Deus acreditamos, afinal? Por que procurar sofrimento também quando se busca o prazer? Ou será que, o ato de viver esteja fatalmente inserido nas palavras iniciais que o poeta inscreve em sua obra: “Lasciate ogni speranza voi ch’entrate”. O significado é simples: “deixai toda a esperança vós que entrais”. Essa é a inscrição que se lê na porta do inferno. (do poema, é claro).
Não sei, não sei; confesso-me, às vezes, totalmente confuso; e você, o que acha? Cabe-nos, ou não, pensar a respeito?

Luiz Santantonio
magnolu@uol.com.br

 
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