Em nossa época a humanidade – que não encontra nada que a satisfaça – criou uma série enorme de esportes radicais. Pula-se de pontes, enfrenta-se águas perigosas, pula-se de pára-quedas em lugares profundos etc. etc. A variedade de atividades perigosas é imensa. Toda essa loucura se destina a aumentar o nível de adrenalina. Aliás, hoje em dia, adrenalina é a palavra da moda. Se você está esperando que eu lhe aponte algum novo brinquedo radical, esqueça. Então que esporte é esse que se pratica há milênios, afinal? Não se espante, porque nossa idéia exigirá – para aproveitar a palavra - uma mudança radical de rumo. Embora o argumento seja algo de muito sério, denominei-o de esporte radical porque é praticado de forma irresponsável por quase todas as pessoas. Refiro-me ao abominável ato de caluniar. Vejam a definição de calúnia: “Imputação falsa que ofenda a reputação, crédito ou honra de alguém.” Fofoca, julgamento, e tudo o que aponta defeitos dos outros, é seu sinônimo. Não existe uma frase que afirma que ao realizar qualquer ato de forma inconseqüente ou leviana, afirmamos “que fazemos aquilo esportivamente?” Por aí se vê que falar mal dos outros, apontar-lhes defeitos, é de certa forma, um ato esportivo. Exagero meu? Talvez!
Nosso bem-estar é algo que nos preocupa. A todo o momento nos perguntamos: por que minha vida é tão difícil? Por que não sou feliz? É evidente que nos faltam condições para responder a essas perguntas; porém nunca imaginamos que uma das razões pelas quais nossa vida não flui adequadamente, com mais paz e harmonia interior, seja a prática desse abominável ato conhecido por fofoca, que não passa de calúnia disfarçada. Analise comigo: nesse contexto, ou somos inocentes distraídos, ou culpados enrustidos. Que direito temos de apontar defeitos nos outros, se nos falta condição – ou humildade - de analisar os nossos? Quem pode afirmar que esta ou aquela conduta seja defeito? Falta-nos, também – o que é muito triste - a percepção dos males causados por esse mau hábito. Como exemplo transcrevo uma locução francesa que esclarece bem essa responsabilidade: “Calomniez, il em reste toujours quelque chose” (Caluniai, da calúnia fica sempre alguma coisa”. Embora se patenteie ao depois a inocência, a dúvida, ou pelo menos a peçonha permanece. Eis aí a verdade: o rastro deixado pela calúnia (conhecida nos meios sociais como fofoca), deixa sempre uma mancha; ela, é bom que se saiba, não atinge apenas o difamado, mas também o difamador. Este que não pense que se livrará da responsabilidade, como se esse mau hábito, fosse apenas um “ato esportivo”, sem maiores conseqüências; a marca dessa “esportividade” permanecerá até o dia em que ele se decida a modificar sua forma de convívio social. Se de fato gostamos de praticar esportes, ainda que radicais, há muito que escolher por aí. Este, de que tratamos, precisa, para o nosso próprio bem, ser totalmente abandonado. Carpe Diem!
Luiz Santantonio
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