Revistas Em Condomínios
Outubro 2007 - O mínimo às vezes é o máximo
   

A Holanda é um país que lutou corajosamente contra o mar, realizando o oposto do que se conhece. Explico: ao invés de permitir que o mar invadisse suas terras, o povo fez o contrário: invadiu o mar, ganhando com isso mais território. Conta-se uma história, provavelmente folclórica, que durante esse período uma menininha de seis anos teria sido a autora de uma proeza que se tornou legendária. Ela teria percebido a existência de um pequeno orifício nas barragens, através do qual a água do mar penetrava terra adentro. O que fez? Colocou um de seus dedos no orifício a pretexto de vedá-lo e impedir o que seria, no seu entender, o início de uma catástrofe. É claro que nada disso aconteceria; o que vale, no exemplo, é a atitude prestativa e oportuna da criança. O exemplo nos mostra um fato que passa despercebido à maioria das pessoas. Vivemos num planeta no qual a harmonia e a paz são quase inexistentes. Tudo o quanto sonhamos, mesmo as coisas mais simples, esbarra sempre em dificuldades, todas elas, se me permitem, mais motivadas pela ausência de fraternidade do que pelos motivos insistentemente alegados. Creio que o desejo de mudar as coisas seja, ainda que inconscientemente, um sentimento natural de toda a humanidade. Porém, quando pensamos nisso, nos julgamos, a priori, incapazes de qualquer iniciativa nesse sentido. Por que? Porque na nossa imaginação seria necessário que fôssemos dotados de uma capacidade especial ou superior à que ostentamos. A maioria dos seres humanos se considera apenas “normal”, desprovida, portanto, dessas tais qualidades exigidas para realizar tarefas distantes dos padrões sociais estabelecidos, dos quais nos tornamos prisioneiros. Nisso reside nosso grande erro. Lembram-se da menininha? Ela realizou um ato considerado heróico, utilizando apenas um dedinho; e o fez com absoluta convicção. Será que não temos capacidade de colocar nem que seja apenas um dedinho a serviço de uma vida melhor? Acho melhor deixar de lado as metáforas e falar claro: é engano – e isso se comprova todos os dias – imaginar que precisamos ser superdotados para realizar alguma coisa em benefício da comunidade. Dia desses acompanhei um cidadão, até que bem vestido, recolhendo copos e papéis usados numa de nossas maltratadas praças. Copos usados e papéis espalhados por todos os lados o que são? Apenas lixo, jogado pelas mãos das pessoas que não possuem sequer um dedinho de educação e zero de cidadania. Não é novidade ser mal interpretado quando fazemos algo em desacordo com a “nossa posição social”, ou com a “nossa educação”, e por aí vai, mesmo que se trate de um gesto destinado a beneficiar a coletividade. Imagine, leitor, quanta gozação o homem não deve ter agüentado, isso porque, a proporção de ignorantes é infinita.
E você, amigo leitor, qual o lado da história que mais o atrai? Aquele do dedinho, ou o outro, que imagina ser necessária uma condição sobre-humana para iniciar alguma mudança? Não é uma verdade universal que toda a caminhada se inicia pelo primeiro passo? A história é farta de exemplos de como uma conduta humanitária, mesmo sendo modesta, acaba, pela constância, produzindo benefícios que extrapolam seu ponto de origem e acabam por beneficiar milhares de pessoas. Não se deve, em nome de um pouco de humildade, subestimar o que ainda não temos a capacidade de compreender. Precisamos nos afastar dessa mentalidade tacanha à qual nossa cultura está presa, e valorizar os pequenos gestos, porque é por meio deles, e não daqueles que são anunciados pelas fanfarras, que encontraremos, pela doação, ainda que pequena, o caminho necessário a uma vida melhor.

Luiz Santantonio
magnolu@uol.com.br

 
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