Aqui a fonte secou?
Todos nós necessitamos de um período mínimo de silêncio a fim de recuperar a calma interior. E onde, nessa barulheira alucinante em que nosso mundo se transformou, encontrar um local em que se preserva o silêncio? Antigamente buscava-se o repouso espiritual no interior das igrejas. Ali, a pessoa – mesmo sem ser religiosa – sentava-se por alguns momentos e absorvia a calma que emanava do local. Este escrevinhador muitas e muitas vezes se valeu desse expediente para meditar, para se acalmar, para se refazer espiritualmente; enfim, durante alguns momentos de silêncio e calma, as idéias se aclaravam e, devidamente refeito, prosseguia na sua jornada de trabalho. Bons tempos aqueles. Hoje as igrejas transformaram-se em locais barulhentos, impregnados de uma musicalidade não muito diferente da que nos é imposta pelas estações de rádio e televisão. De tal modo nos distanciamos do que é espiritual, que se torna difícil separar o sagrado do profano.
A igreja deve ser um local sagrado, impregnado de silêncio, de quietude, de paz; e é justamente isso que o seguidor não mais encontra. É importante ressaltar, por outro lado, que a conduta dos freqüentadores de hoje, infelizmente, está assentada numa espiritualidade desvirtuada, distante do verdadeiro sentido daquilo que em outros tempos se buscava. As reuniões religiosas – em todas as igrejas, quase sem exceção – são muito mais reuniões mundanas do que propriamente religiosas. A religiosidade e a espiritualidade tomaram rumos estranhos à sua natureza e se travestiram de conceitos totalmente opostos à sua origem, insistentemente repetidos pela ignorância – ou interesse - dos que os ensinam.
Aqui jorra água cristalina?
Semana passada fui a um concerto. Teatro lotado, gente de todo o tipo e de todas as crenças, lógico. Durante a execução do programa, silêncio total e absoluto; os espectadores, praticamente sem exceção, mantiveram-se quietos, reverentemente quietos, absorvendo a música, utilizando-a com um sentido quase místico, permitindo que a musicalidade desenvolvida em meio ao silêncio respeitoso de cada um se transformasse num elemento germinador de paz e conforto interior. Afinal, para absorver um pouco de silêncio e paz devemos afastar-nos dos locais onde outrora os buscávamos? Que é feito da nossa espiritualidade? Antes nossa presença nos templos religiosos destinava-se a nos aproximar de Deus. Hoje, o que vamos fazer nas igrejas, se nem sabemos o que procuramos? A verdade é que espiritualmente estamos caminhando sem destino por um deserto árido e seco. Esquecemos – ou ignoramos – que a nossa grande luta é tentar nos entender; para isso precisamos, no mínimo, de um pouco de silêncio a fim de que nossas forças interiores se identifiquem, se conheçam, e lutem pela conquista da espiritualidade verdadeira.
Aos que aceitam como verdadeira minha colocação a respeito do silêncio reparador, deixo, com o devido respeito, uma sugestão: dialoguem com os dirigentes de seu caminho religioso e tentem mostrar-lhes como está sendo difícil manter a espiritualidade – e aproximar-se de Deus - na presença da “barulheira musical”, que hoje se vê em todas as igrejas; eu disse, em todas, e não em apenas algumas. Ou será que, para viver momentos de silêncio reparador, teremos de trocar as igrejas pelos teatros?
Fugit irreparabile tempus! Foge o tempo irreparável. O grande poeta Virgílio lembra-nos que o tempo passa rapidamente, portanto, não devemos desperdiçá-lo.
Luiz Santantonio
magnolu@uol.com.br