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Julho 2007 - Capítulo primeiro – Rua de São Paulo - Cena comovente que nos envolve
   

Tentar compreender a natureza humana, tendo em vista a complexidade de idéias que a regem, é tarefa quase impossível. Contentemo-nos, pois, em analisar apenas duas de suas nuanças. Dia desses presenciei a seguinte cena: ao transitar por uma rua movimentada, deparei-me com uma pequena multidão que rodeava algo; imaginei que fosse uma pessoa atropelada, fato comum nas ruas da cidade. Tratava-se de um atropelamento, porém, não de um ser humano, mas de um cãozinho. Notava-se no rosto de todos um forte sentimento de tristeza. Não se via uma única pessoa indiferente; ao redor do animal, só solidariedade e amor. Um gesto bonito; afinal é nosso dever proteger os animais, amá-los e protegê-los.
Capítulo segundo – Nosso dia-a-dia – Cenas comoventes que não nos envolvem
Vamos abandonar a cena e nos encaminhar para uma residência qualquer, onde mais cedo ou mais tarde, os moradores estarão com os olhos voltados para as notícias da televisão. É difícil a pessoa não escolher - escrava que é da rotina - um programa que transmita notícias tanto locais como mundiais. O que fazemos durante a transmissão de tais programas é o que menos importa; podemos estar tomando o café da manhã, almoçando ou jantando; nossa ansiedade para nos ligar às ocorrências é quase patológica. Bem, e o que nos trazem os noticiários? Raramente imagens de bem-estar e tranqüilidade.
Iniciei narrando uma cena em que os transeuntes se apiedavam de um cãozinho atropelado; aqui, coloco o leitor diante da televisão assistindo ao noticiário; e com que matéria ele nos presenteia em profusão? Violência sob todas as formas imagináveis e inimagináveis, não contra um ser irracional, como o cãozinho, mas contra nossos semelhantes. São crimes, estupros, violência contra mulheres e crianças, guerras sem fim, terrorismo; enfim, violência desenfreada, gratuita, chocante. Chocante? Essa palavra, infelizmente não se aplica mais a esses horrores que o homem comete contra o homem. O que causa apreensão é verificar que enquanto as imagens se sucedem, o telespectador permanece calmo, indiferente, distante. A violência, com toda a sua horrenda face, banalizou-se. Conseguimos permanecer de olhos fechados diante dos males que o ser humano pratica em relação ao seu semelhante. Como se explica que a nossa sensibilidade e nosso amor sejam naturalmente acionados diante da morte de um animal, e, nos perguntar onde se ocultam nossa sensibilidade e nosso amor ante a crueldade que diariamente ceifa a vida de milhares de pessoas? Hoje é comum – enquanto a televisão exibe seus horrores – o telespectador continuar calmamente a desfrutar sua refeição, seu papo com os amigos, sua diversão; enfim, me pergunto: em que nos transformamos? Em estátuas de pedra, sem alma nem coração? Não é justo nem prudente passar pela vida sem questionar seriamente nossos sentimentos. Eis um dos grandes dilemas de nosso tempo.

Luiz Santantonio - magnolu@uol.com.br

 
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