Sabem os meus amigos leitores o que significam essas palavras? Traduzo logo para desencucar o leitor: “O homem é lobo para outro homem”. Têm origem em um pensamento de Plauto, poeta latino nascido no terceiro século antes de Cristo, alusivo à ferocidade que o homem muitas vezes manifesta a outro. Se naquele tempo já se observava essa ferocidade entre os seres humanos, que dizer de nossos dias? Antes, porém, sejamos justos com os lobos. Por que atribuir-lhes tal ferocidade? São eles animais dotados de inveja, de vaidade, de frieza em relação aos membros de sua matilha? Desconheço o fato de ser o lobo,” lobo para o próprio lobo”. Há então no pensamento do poeta uma grande contradição, ou seja, não há como incriminar os lobos imputando-lhes um tipo de ferocidade que os tornem inimigos de seus iguais. Esses animais, pelo que deles se conhece, são criaturas em certas circunstâncias até domesticáveis; portanto, seria desonroso para a espécie culpá-los por defeitos característicos de nós, humanos. Ora, aqui a página se inverte: afinal qual é a espécie mais impregnada de ferocidade contra seus semelhantes, nós ou os lobos? Basta dar uma olhada em volta para nos certificar que em matéria de bestialidade (não escrevi “animalidade” para não ofender os animais) não há quem supere os humanos.
Se passarmos uma vista d'olhos na vida da humanidade perceberemos, claramente, que a nossa maneira de viver em sociedade não chega nem perto da maneira como os os lobos – e todos os animais ditos irracionais – vivem. Os animais não se “preocupam” em criar progresso, em evoluir; sua vida já está delineada pela própria natureza. São o que são, do nascimento até a morte. Nós, não! Nossa natureza (pelo menos para a maioria ) compõe-se de uma parte material e outra espiritual. Sem entrar em discussões filosóficas, religiosas ou teológicas, uma coisa é certa: somos o que há de mais nobre na criação. Se vasculharmos a história encontraremos um pequeno (proporcionalmente) contingente de seres humanos que se destacam pela sua conduta altamente humanitária. Encontramos, ao lado dessa minoria, milhares, melhor dizendo, milhões a navegar sem destino pela vida, sem fazer nada nem para si nem para ninguém. Serão eles os que se comportam da forma como o poeta os classifica? A grande e triste realidade é que, pelo rumo egoísta e desumano que construímos para o nosso dia-a-dia, a ferocidade mútua tornou-se tão normal que não mais a sentimos. Alegamos que a humanidade está em constante progresso. No campo das conquistas materiais, é verdade; no campo da fraternidade, não! São quase infinitos os descaminhos que obscurecem nossa caminhada. Portanto, sejamos honestos, e deixemos os lobos em paz; tratemos de cuidar da “nossa matilha”, e viver – pasmem – com a mesma paz com que vivem os lobos. E acima de todos interesses egoísticos que apequenam nossa espécie, seja este nosso lema: “O homem é irmão para outro homem”.
Luiz Santantonio - magnolu@uol.com.br